Axé Odé Inlé

Pais de santo: apenas “comedores de arroz e feijão”

Lembro de uma época – e não faz muito tempo – onde falávamos pouco e ouvíamos muito, sempre que havia alguém disposto a dividir conhecimento litúrgico no Candomblé. Reconhecíamos pessoas de notório saber, de procedência e, ainda que tivéssemos convicções formadas, conseguíamos entender quando caminhos diferentes convergiam para o mesmo fim. Os caminhos eram identidades reconhecidas e respeitadas de diferentes famílias e encontravam base em tradições familiares ou ancestrais de seus precursores.

Conhecimento era precioso. Quem tinha, guardava. Quando dividia, o fazia com aqueles que considerava merecedores. Quem não tinha, perseguia. Quando não encontrava, apenas se calava. Cada um sabia seu tamanho, seu lugar, suas limitações e suas potencialidades.


Não faz muito tempo, mas as coisas mudaram drasticamente. Há tanta gente falando que até os que antes guardavam sentiram-se na obrigação de compartilhar mais. Contudo, já não existe mais tanta gente disposta a ouvir.


Conheço pessoas que têm muito a dizer, mas calaram-se por ver o saber reunido ao longo de uma vida ser banalizado, tratado como item de perfumaria. Outros falaram até mais do que muitos mereciam ouvir, mas tiveram suas palavras subvalorizadas, ensurdecidas em meio a tantos “professores”.


Conheço pessoas que dedicaram uma vida toda pra aprender e hoje não têm a quem ensinar. Não do jeito que aprenderam, com olhos e ouvidos. Joelhos dobrados e pés no chão. Com suor e lealdade, que hoje ganha ares de requinte de crueldade, humilhação.


Hoje o conhecimento tem que ser dado, mas quem recebe ainda tem que ser convencido. Está sujeito à validação, afinal, “mestres”, assim como seus discípulos, são apenas comedores de arroz e feijão.

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